Servindo os ideais do Movimento Rosa-Cruz

Uma entrevista com Gary L. Stewart

Imperator de um Movimento Rosa-Cruz,
Cavaleiro Comandante da O.M.C.E. e
Grande Mestre Soberano da Ordem Martinista Britânica
para o site da CR+C, em 9 de agosto de 2002, por Andre Rotkiewicz

O que o levou e quando começou sua busca da Verdade e da Luz em um caminho tradicional?

Eu tinha provavelmente cerca de doze anos de idade quando desenvolvi um interesse em assuntos místicos, embora realmente me lembre de ter tido algumas experiências e impressões interessantes muito antes dessa idade. No entanto, até os dezoito anos não tinha realmente me envolvido com nenhum grupo organizado — e isso foi com uma Loja esotérica na Bélgica. Suponho que eu creditaria àquela data — junho de 1971 — o início efetivo em um Caminho Tradicional. Foi somente em 1975 que eu me envolvi no Rosacrucianismo através de minha afiliação à AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis).

Como o senhor se tornou um Imperator do Movimento Rosa-Cruz?

Na minha opinião, é inapropriado dizer que me tornei um Imperator “do” Movimento Rosa-Cruz. É melhor dizer que sou um Imperator de “um” Movimento Rosa-Cruz. A palavra “Rosa-Cruz” é bem genérica em seu uso e há muitos grupos, pessoas e linhagens diferentes que podem corretamente usar a palavra para descrever sua função e/ou identidade, com relação ao Trabalho que fazem. Na minha opinião, qualquer um que tente declarar-se como sendo a autêntica ou genuína Ordem Rosa-Cruz, excluindo qualquer um ou todos os outros, está tristemente carecendo de perspicácia histórica.

Com isso dito, eu me tornei o Imperator de um movimento Rosa-Cruz que perpetuou uma linhagem passada do Dr. H. Spencer Lewis para seu filho, Ralph M. Lewis e para mim mesmo, que estava se manifestando em uma Organização chamada AMORC. A AMORC foi criada por H. Spencer Lewis em 1915 após muitos anos de preparação. De acordo com os ditames tradicionais daquela linhagem (e da maioria de outras Linhagens Rosa-Cruzes de que estou ciente), tornei-me Imperator através de seleção pessoal de meu predecessor, Ralph Lewis, para tornar-me seu sucessor após sua morte — que ocorreu em janeiro de 1987.

O senhor fundou a Confraternidade da Rosa+Cruz. Poderia nos falar sobre a história e os objetivos da CR+C?

Eu fundei a CR+C (Confraternidade da Rosa+Cruz) em 1996 com o propósito de perpetuar tanto as Tradições Rosa-Cruzes quanto a Linhagem do Imperator, como foram passadas para mim. Como muitos estão cientes, o Rosacrucianismo da AMORC passou por um certo tumulto que começou em 1990. Naquela época, eles embarcaram em seu próprio caminho, que se desviou tremendamente do Caminho e da Linhagem iniciais que eu estava encarregado de trabalhar. A CR+C foi formada para preservar aquela linhagem particular e para tornar disponíveis, em sua forma pura, os ensinamentos iniciais da R+C como foram apresentados originalmente.

Quanto aos objetivos da CR+C, bem… deixe-me dizer que desde a nossa formação, em 1996, embarcamos em um programa meticuloso de preparação para que cada Rosa-Cruz individualmente chegue a um ponto em que aqueles que escolham possam ajudar a CR+C a começar uma nova era de manifestação de acordo com as Regras e Códigos da R+C, conforme estabelecidas no século XVII. Haverá um encontro de todos os Illuminati da CR+C em nossa Convenção Norte-Americana em abril de 2003 para discutir e decidir este assunto. Esses encontros continuarão pelo resto do ano em Convenções em outras jurisdições, após os quais será feita uma declaração sobre a direção e os objetivos futuros da CR+C. O que direi agora sobre isso é que continuaremos a perpetuar as Regras apresentadas no Fama Fraternitatis, mas iremos adaptá-las ao século XXI, de acordo com a tradição.

Após vários séculos de existência do Rosacrucianismo, resta-nos hoje uma herança de muitas ordens Rosa-Cruzes, ensinamentos e várias linhagens. Esse é um cenário um tanto confuso para o leitor casual. O senhor poderia nos dar uma perspectiva de como um Movimento Rosa-Cruz, a Tradição R+C, as linhagens e as organizações Rosa-Cruzes se relacionam umas com as outras?

Na maioria dos casos, as diversas organizações Rosa-Cruzes se relacionarão umas com as outras somente no nome, o que, claro, é de pouca ajuda para o leitor “casual” na tentativa de classificar suas diferenças. Mas, se é de algum consolo, o Rosacrucianismo nunca teve a intenção de ser algo que pudesse facilmente ser classificado. Por sua própria natureza, o Rosacrucianismo pretende ser desafiador para os buscadores e elusivo para os que têm um interesse casual. Como Spinoza escreveu uma vez “todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras”. O Rosacrucianismo certamente se encaixa nessa categoria.

De minha perspectiva, qualquer um que se interesse em ir ao encalço de um Caminho Rosa-Cruz deve tomar a iniciativa de classificaras diversas opções disponíveis a ele e escolher uma que esteja de acordo com suas próprias convicções interiores e com os ditames de sua própria consciência. Como regra prática geral, o Rosacrucianismo diz respeito a direitos humanos e liberdades básicas, com a liberdade de inquirição e a verdade no topo da lista. Ele diz respeito a encorajar e ajudar os indivíduos a desenvolverem todos os aspectos de seu ser — mental, físico e espiritual — de acordo com sua própria personalidade e intenções. Diz respeitoà evolução do Espírito e ao desenvolvimento de atributos místicos aprimorados. Não diz respeito nunca a seguir a liderança de outro à exclusão pela perda da própria identidade e das metas pessoais; não diz respeito a recitar doutrinações dogmáticas; nem a nada que possa ser ofensivo às sensibilidades próprias de cada um. Em resumo, o Rosacrucianismo diz respeito à Verdade e a Verdade por sua própria natureza diz respeitoà liberdade — uma liberdade responsável, mas liberdade, apesar de tudo.

Então, deveria, ou melhor deve ser deixado a cargo do indivíduo encontrar uma organização ou linhagem Rosa-Cruz que melhor se adapte a suas própria personalidade, interesses e intenções. Em minha opinião, uma busca não deveria ser de outra forma. Há várias boas organizações lá fora e encorajo qualquer um que esteja procurando se tornar um Rosa-Cruz a aprender o máximo possível sobre cada uma em que esteja interessado. Se as respostas procuradas não estiverem prontamente disponíveis , então o buscador deveria perguntar — e esperar uma resposta apropriada.

O que fez o Rosacrucianismo sobreviver como uma cultura tradicional viva através dos últimos vários séculos?

Sua focalização inabalável em seus objetivos e a confiança nas liberdades básicas para alcançar tais objetivos. Uma coisa interessante sobre o Rosacrucianismo é que, quando aqueles objetivos se tornam nebulosos, o Movimento em si parece passar por uma transformação. Talvez por isso haja tantas linhagens diferentes existindo hoje.

Como o senhor determina um Rosa-Cruz?

Por suas ações e obras. Se aquelas ações e obras forem compatíveis com o espírito do Rosacrucianismo, então aquele que conscientemente escolheu se tornar um Rosa-Cruz pode ser identificado como sendo um.

O que faz de uma Ordem Rosa-Cruz uma genuína Ordem R+C?

Acho que a palavra “genuína” tem sido posta demasiadamente no ridículo no que diz respeito ao Rosacrucianismo. Entretanto, com isso dito, acredito que você aplicaria os mesmos padrões a uma Ordem que a um indivíduo. Sendo isso através de suas ações e obras. Não meça as alegações, meça as realizações. E no processo de medir as realizações, meça também como aquelas realizações foram alcançadas e assegure-se de que elas são compatíveis com uma ética que reflete o espírito Rosa-Cruz.

O senhorpode compartilhar alguns pensamentos sobre os ensinamentos da CR+C e que abordagem eles adotam com relação à busca espiritual dos estudantes?

Os ensinamentos da CR+C são planejados para ajudar na busca espiritual do Rosa-Cruz. Eles não são um plano dogmático de um processo passo a passo, mas um guia que é adaptável à personalidade do indivíduo e à maneira de atingir sua meta. Eles realmente incluem uma quantidade enorme de exercícios e experimentos para ajudar a alcançar aquelas metas, assim como muitas sugestões que podem ser de ajuda, mas o que deve ser compreendido é que a melhor ferramenta de aprendizagem do Rosa-Cruz é aquela da autoconfiança e é nesse espírito que os ensinamentos da CR+C são escritos e apresentados.

Sendo o Imperator de um Movimento Rosa-Cruz, o senhor pode nos contar sobre o papel e a perpetuação do Ofício do Imperator?

O papel do Imperator é aquele de guardião e perpetuador da doutrina, do ritual e da tradição Rosa-Cruz. O Imperator é responsável por assegurar que todos os problemas envolvendo esses aspectos sejam corretamente manejados e expressados. Também, no que diz respeito à área de mudanças e atualizações da doutrina etc., o Imperator é aquele que deve fazer esse trabalho. Embora deva acrescentar que o Imperator não pode fazer mudanças arbitrárias etc.. Ele ou ela está atado aos juramentos que fez quando se tornou um Imperator e deve trabalhar dentro daquela tradição. Isso ajuda grandemente a manter puro o Caminho R+C e é uma das razões pelas quais a seleção do Imperator é feita por seleção pessoal do Imperator anterior, e por que a posição é uma indicação ad vitum. Isso leva em conta a continuação consistente e o treinamento apropriado de um sucessor.

Quanto à perpetuação do Ofício do Imperator, é como eu disse; um ofício vitalício preenchido por um sucessor escolhido. Isso assegura que o indivíduo escolhido não fará mudanças arbitrárias, é apropriadamente treinado e irá trabalhar dentro dos parâmetros do Ofício.

Parece que a Tradição R+C está sempre se expressando e se adaptando ao fluxo do tempo e às condições existentes. O senhor poderia nos dar um exemplo dessa adaptabilidade na história Rosa-Cruz?

Um bom exemplo disso é a adaptação da metodologia do século XVII àquela do século XX (o sistema do século XVII continuou mais ou menos bem para dentro do século XIX). Enquanto o sistema de ensinamento do século XVII se baseava pesadamente em decifrar imagens alegóricas conhecidas como“pranchas” ou “arcanos”, relacionados principalmente a textos alquímicos e a outros símbolos, o formato do século XX foi simplificado em explicações, exercícios e experimentos que se aprofundavam no desenvolvimento de qualidades místicas e intuitivas dentro do indivíduo. Entender alegoria e símbolos ainda tem um papel muito importante no Rosacrucianismo de hoje, mas não é o único papel, como era no passado.

Quanto ao futuro, como disse, haverá logo uma outra adaptação, mas ainda de acordo com nossas Regras iniciais, como expressado em nossos Manifestos de fundação do século XVII.

O senhor acredita quea geração de hoje do Rosacrucianismo vive à altura dessa virtude de adaptabilidade e assim consegue lidar com os desafios de nossos tempos?

Eu só posso falar com autoridade pela CR+C e, nesse caso, sim, muito definitivamente. É minha opinião que em muitos outros grupos R+C dos quais estou ciente, que alguns deles também são bastante adaptáveis. Com isso dito, também acho que há algumas organizações que estão criando problemas desnecessários para si mesmas e, portanto, provavelmente não se qualificariam a esse respeito, mas isso não é realmente para eu comentar.

No passado, houve uma tentativa bem-sucedida de um grupo de várias ordens esotéricas de criar uma organização (chamada F.U.D.O.S.I.) para proteger e promover as tradições autênticaspara o público daquela época. Eles estavam de certo modo dando um selo de aprovação para as ordens existentes. Eu me lembro que a AMORC recebeu carta patente da FUDOSI nomeando-a com certos símbolos e documentação. Como a Tradição R+C, ou qualquer tradição esotérica, vê tal conceito de “autenticação” da ordem?

Eu acho que é uma idéia muito nobre e respeitável um grupo de organizações se unir com o expresso propósito de controle de qualidade nos campos do esoterismo, ocultismo e misticismo. No entanto, e estou provavelmente na minoria com esta opinião, não acho que isso tenha realmente sido feito antes. Em qualquer ocasião que um grupo se una com o propósito declarado de proteger e promover tradições “autênticas”, duas coisas se tornam obviamente aparentes para mim. Primeiro, que há uma pressuposição de que as partes interessadas sejam tradições autênticas. Embora sua meta fosse examinar prováveis tradições, ainda não em seu grupo, e fazer uma avaliação de suas descobertas sobre a “legitimidade” daqueles grupos, não havia controle para medir a legitimidade da Ordem fundadora. Aquela autenticidade era pressuposta em virtude de se estar fundando uma organização fiscalizadora. Em segundo lugar, torna-se aparente que tal organização deva necessariamente se tornar exclusiva em sua natureza o que, em minha opinião, é fundamentalmente contrário ao trabalho tradicional que fazemos. Por exclusiva, não quero dizer protetora de nossas tradições, o que é muito importante, mas mais exatamente, fechada e crítica de outra (organização) baseando-se em uma noção preconcebida e a seu serviço. Infelizmente, em minha opinião, baseada em muitos anos de pesquisa, incluindo discussão com várias partes envolvidas, cheguei à opinião de que a FUDOSI se incluiu na última categoria. Desnecessário dizer, a AMORC e H. Spencer Lewis foram parte da estrutura de fundação da FUDOSI e é caso defensável que a AMORC foi a motivadora por trás de sua formação com os propósitos de:

  1. Estabelecimento de uma dominância na América do Norte e em outros lugares do trabalho Rosa-Cruz e,
  2. Uma tentativa de resolver a disputa Clymer e as muitas outras ações judiciais em que a AMORC esteve envolvida de 1918 a 1939.

Os efeitos da FUDOSI são muitos e certamente resta muito interesse naquela organização, especialmente no que diz respeito à questão da “autenticação”. O que muitas pessoas não percebem é que houve constantes disputas internas entre os membros da FUDOSI que culminaram em sua dissolução em 1951.

Seja como for,não acho que a Tradição Rosa-Cruz ou qualquer tradição esotérica para esse propósito precise de autenticação da forma como foi sugerida. Uma vez mais, meça o valor de uma Ordem por suas obras e confie na epistemologia e nos métodos do caminho esotérico para expressar sua história e linhagem acima da produção de cartas-patente e documentos de fundação. O assunto lida com dois mundos completamente diferentes. Por que comprometer um pelo outro?

O senhor também ocupa o ofício de Cavaleiro Comandante da O.M.C.E. e o ofício de Grande Mestre Soberano da Ordem Martinista Britânica. Tendo uma fundamentação tradicional tão profunda, como vê o trabalho futuro das tradições esotéricas na medida em que elas todas se esforçem para trabalhar rumo a um objetivo comum? Há lugar para uma cooperação mais próxima entre elas?

Há, definitivamente, um lugar para cooperação entre todas as organizações esotéricas, ocultas e místicas, considerem-se elas Rosa-Cruzes, Martinistas ou qualquer denominação que escolham. No final das contas, nós estamos todos tentando atingir as mesmas metas — a elevação e a evolução espiritual de toda a humanidade. Para alcançar essas metas, nós todos precisamos trabalhar em conjunto uns com os outros.

Em um comentário final, o que o senhor vê no futuro do Rosacrucianismo?

Eu tendo a ver o Rosacrucianismo como um fio que tece seu caminho através da história e para dentro do futuro. É como o véu da Natureza, sempre presente, mas devendo-se ver através dele para se ver adequadamente. Nisso, mantém aquela propriedade, sempre estará presente, mas algumas vezes escondido, esperando para ser redescoberto. Mas quando descoberto, continua de onde parou. Seu futuro? Um efeito muito profundo na humanidade, e não obstante sutil — justamente como no passado.

AR: Quero agradecê-lo por seu tempo para dar esta entrevista. Creio que os visitantes do site da CR+C se beneficiarão de seus pensamentos e percepções sobre o Rosacrucianismo e sobre assuntos esotéricos em geral.