(Incluindo o Credo Rosacruz e o Adendo)
Por Gary L. Stewart
Fundamentos
A Grande Virtude da Vida no Deserto: ser do deserto era, como sabiam, um destino que os condenava a travar uma batalha sem fim contra um inimigo que não era nem deste mundo, nem da vida, nem coisa alguma senão a própria esperança; e o fracasso parecia ser a liberdade que Deus dava à humanidade. Só poderíamos exercer essa nossa liberdade não fazendo aquilo que estava em nosso poder fazer, pois só assim a vida nos pertenceria, e a teríamos dominado ao considerá-la de pouco valor.
A Grande Virtude da Vida no Deserto nos traz humildade, discernimento e obstinação.
A Grande Virtude da Vida Comum: O aparecimento da R+C não passou de um sonho, uma visão perdida velada pela confusão manifestada nas mentes dos profetas. Como tal, esse surgimento ainda tem que se manifestar, ainda tem que nascer, porque aqueles que deveriam ter tido o poder para criar, em vez disso, optaram, em virtude de sua liberdade dada por Deus, por considerá-la de pouco valor, dando-nos apenas a chave por meio de um símbolo.
A Grande Virtude da Vida em Comum, que estabelece que jamais devemos julgar o próximo.
ἄναρχος γνŵσις
O Credo
- Deus existe, ἀγέννητος (agennetos), e é sabido existir na memória, onde Deus é primeiramente buscado.
- É a partir da linguagem de Deus que conhecemos a existência de Deus. Esse conhecimento vem até nós em virtude daquilo que Deus faz (contentual) e não daquilo que Deus é ou não é (contextual).
- A epistemologia de Deus é sinuosa e catafática (definida positivamente), não linear e apofática (definida negativamente).
- No instante da primeira vida, a memória de Deus e a Linguagem de Deus são conhecidas por todos de forma perfeita, mas não necessariamente de maneira completa. Cada um deve buscar essa arte de conhecer, de forma individual e assertiva.
O Credo Rosa-Cruz
- É diretriz dos irmãos que o Credo da R+C, a retidão do pensar, do qual muito foi ocultado, seja trazido à mente, apresentado e lembrado.
- Nosso Caminho é o da intelecção, tal como apresentado e estabelecido por Alcinous e mais tarde tornado demonstrável na Philokalia nas terras ocidentais, e por al-Kindī, no Irāq.
- Nossa técnica é a linguagem da intelecção, aprendida por Plotinus; transmitida a Eunomius, que a interpretou corretamente; preservada por Teophiluis, o Indiano, na Arabia Felix, por Ulfilas na Europa, pelos Mu'tazilitas (entre os quais havia aqueles que professavam a existência de um estado entre a crença e a não crença); documentada nas Rasāʼil da Irmandade; e aprendida por nosso Pai em Damcar (Dhamār).
- É a partir da nossa utilização da linguagem figurativa, da lógica metafórica e do simbolismo que, de acordo com o aprendizado, tal linguagem deixa de ser elusiva para o Rosacruz e assim se torna uma imagem vívida e convincente, suficiente em si mesma, para ser aceita como tal.
Façam disto o que quiserem
Sibb’ ǣfre ne mæg wiht onwendan þām ðe wel þenceð.
Adendo ao Credo
- ἀγένητος (agenetos): incriado, não originado. A raiz da palavra vem de "começar a ser".
ver Pl. Fedro (Platão, Fedro) 245 c-e: "… Então, apenas aquilo que move a si mesmo nunca cessa de se mover… de fato, isso que move a si mesmo é também a fonte e a origem do movimento em tudo o mais que se move; e uma fonte não tem começo… não há fonte para isso, pois uma fonte que tivesse seu início a partir de outra coisa deixaria de ser a fonte. E, uma vez que não pode ter um começo, necessariamente não pode ser destruída… enquanto um corpo cujo movimento vem de dentro, de si mesmo, possui uma alma, sendo essa a natureza de uma alma… segue-se então, necessariamente, que a alma não deve ter nem nascimento nem morte." - ἀγέννητος (agennetos): sem causa, não gerado, não nascido. A raiz da palavra vem de "gerar ou dar à luz", ou seja, sem causa.
ver Pl. Timeu (Timeu) 52 a-b: "… mantém sua própria forma imutavelmente, que não foi trazida à existência e não é destruída, que não recebe em si mesma nada mais vindo de qualquer outro lugar, nem tampouco entra em qualquer outra coisa em lugar algum, é uma coisa. É invisível — não pode ser percebida pelos sentidos de forma alguma — e cabe ao entendimento estudá-la. A segunda coisa é aquela que compartilha o nome da outra e se assemelha a ela. Essa coisa pode ser percebida pelos sentidos e foi gerada (γεννητός). Ela nasce constantemente sozinha, ora vindo a ser em certo lugar, ora perecendo dali. Ela é apreendida pela opinião, que envolve a percepção sensorial. E o terceiro tipo é o espaço, que existe sempre e não pode ser destruído. Ele fornece um estado fixo para todas as coisas que vêm a ser. Ele mesmo é apreendido por uma espécie de raciocínio bastardo que não envolve percepção sensorial, e mal chega a ser objeto de convicção. Olhamos para ele como em um sonho quando dizemos que tudo o que existe deve necessariamente estar em algum lugar, em algum ponto e ocupando algum espaço, e que aquilo que não existe em lugar nenhum, seja na terra ou no céu, não existe de forma alguma."
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Agennetos versus Agenetos e porque o Credo usa agennetos para se referir a Deus, em contraposição ao Cristianismo e às sociedades místicas e ordinais, que usam agenetos:
Essas palavras vêm de raízes diferentes e, em princípio, significam coisas diferentes. Certamente, Atanásio e os defensores da Igreja Niceana argumentaram dessa forma e adotaram essa distinção ao desenvolver o dogma da Igreja, tão vigente hoje quanto o era no século IV. "Agennetos" (ἀγέννητος) vem de γεννἀω, gerar ou dar à luz (isto é, sem causa), enquanto "agenetos" (ἀγένητος) origina-se de γίγνομαι, causar ser ou tornar-se (isto é, causado). Assim, aplicando isso a um exemplo em contexto bíblico, Adão poderia ser descrito como agennetos, pois não teve pai, mas não como agenetos, pois começou a ser (isto é, ele necessariamente teria de ser descrito como genetos, e não como agenetos). Enquanto Atanásio e os niceanos estabeleceram uma distinção entre as duas palavras — distinção essa que conferia uma aparência de validade lógica à mente racional —, Eunomius e os não-niceanos consideravam as palavras equivalentes no contexto do Divino. O raciocínio por trás do pensamento de Eunomius nessa questão reside no fato de que, em grande parte do pensamento grego, o universo é considerado dividido entre coisas que são causadas e não têm começo (genetoi), e outras coisas que são incausadas e não têm começo, coisas que jamais vieram a existir (agenetoi). Autores pagãos podiam incluir, entre essas últimas, não apenas as almas como entidades automoventes, mas até mesmo o próprio universo. Enquanto cristãos e judeus restringiriam o uso dessa palavra a Deus, o Criador não gerado de todas as coisas, os niceanos que afirmavam que o Filho e o Espírito eram agenetos estavam dizendo que essas entidades eram de algum modo conectadas ontologicamente com a origem agenetos (e agennetos) da realidade. Para Eunomius e os não-niceanos, isso era tão blasfemo quanto ilógico, pois somente um Deus ontologicamente simples e absolutamente único poderia ser agennetos. A questão entre niceanos e não-niceanos, portanto, era que os niceanos precisavam distinguir entre a ausência geral de origem das pessoas na Trindade e a não geração própria do Pai. Por outro lado, os não-niceanos precisavam garantir a causalidade única de uma única fonte Divina, e distinguir entre uma ausência de causa geral e uma específica, como faziam os niceanos, tornaria isso impossível. Portanto, para Eunomius, "agennetos" e "agenetos" necessariamente tinham de ser idênticos.
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